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Jung e o perigo da massa: por que mudar o mundo exige olhar para dentro

A articulação entre indivíduo e coletividade é um dos pontos que tornam a psicologia analítica tão relevante hoje. Jung não compreende os fenômenos coletivos apenas como acontecimentos externos à psique. Ao contrário, entende que os processos históricos, políticos e sociais também expressam dinâmicas inconscientes, projeções de conteúdos arquetípicos não reconhecidos. Da mesma forma, os acontecimentos externos afetam profundamente a vida psíquica dos indivíduos.

A individuação como proteção

O centro da psicologia junguiana é o indivíduo e o processo de ampliação da consciência, denominado individuação. Para Jung, essa diferenciação é vital e cumpre uma função social, pois permite ao sujeito posicionar-se de forma autônoma frente aos movimentos de massa, que são irracionais.

Conforme aponta Aniela Jaffé, reconhecer que a consciência depende de condições externas e internas, sem perder o senso de responsabilidade e liberdade, é uma tarefa central do homem moderno. A personalidade consciente, ao obedecer ao seu destino individual, torna-se o único baluarte contra a massificação social.

Depois da guerra

Em Presente e futuro, Jung reflete sobre o impacto da sociedade moderna no indivíduo e analisa os riscos da massificação, da perda da experiência interior e da submissão da consciência individual aos movimentos coletivos.

Na época, Jung estava preocupado em como a sociedade poderia evitar novas tragédias como a da Segunda Guerra Mundial. A individuação, para ele, significava um caminho para estabelecer uma melhor relação com essas forças desconhecidas e impedir que elas se expressassem de forma tão patológica.

Em Aspectos do drama contemporâneo, ao analisar os elementos que contribuíram para o nacional-socialismo, Jung chama atenção para os efeitos devastadores de conteúdos inconscientes negligenciados quando passam a atuar em escala coletiva.

Para Jung, o indivíduo que não está “ancorado em Deus” não consegue, apenas com seus próprios recursos, resistir às pressões físicas e morais do mundo. Precisa de uma experiência interior transcendente, sem a qual a submersão na massa se torna inevitável.

Por “ancorado em Deus” entende-se a relação do ego com o si-mesmo, que é justamente o processo de individuação, no qual a pessoa se torna mais completa e inteira, sustentada por sua própria individualidade. Como aponta Jaffé, a importância social desse movimento é que a conscientização interrompe a projeção do lado sombrio sobre os outros, o que permite estabelecer relações mais sólidas tanto na esfera individual quanto na comunidade.

Indivíduo e comunidade

Isso não significa desprezar o coletivo. Conforme destaca Jaffé, para Jung não há comunidade sem o indivíduo e, sem comunidade, mesmo o indivíduo livre e seguro de si não pode prosperar ao longo do tempo.

Na perspectiva junguiana, o indivíduo é fonte da mudança histórica e veículo da vida social. As coletividades, na esfera biológica, social e política, são constituídas de indivíduos, e é por meio deles que a vida pode cumprir seu significado.

Quando a mudança só inverte os polos

A questão crucial é a reflexão que Jung propõe sobre a inter-relação entre o individual e o coletivo: há um enorme risco para as sociedades quando transformações externas não são acompanhadas por elaboração psíquica. Quando conteúdos inconscientes permanecem projetados, uma transformação social pode apenas inverter posições de poder sem modificar os fundamentos simbólicos da dominação, ou então se voltar contra os próprios indivíduos.

Jung lembra que ninguém está fora da sombra coletiva da humanidade, e que o crime é sintoma de uma disposição que existe em toda parte. Reconhecer isso é desconfortável. Mas é também o que impede que a sombra seja sempre colocada no outro, e que um movimento nascido para libertar acabe reproduzindo aquilo que combate.

Referências

  • JAFFÉ, Aniela. O mito do significado na obra de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 2021.
  • JUNG, C. G. Aspectos do drama contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 2012.
  • JUNG, C. G. Presente e futuro. Petrópolis: Vozes, 2013.

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