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Arquétipo não é receita de como ser mulher

Uma crítica frequente à psicologia junguiana é a de que ela fixaria papéis: o feminino de um lado, o masculino de outro, como essências naturais. A crítica tem fundamento em parte. Mas o próprio conceito de arquétipo abre espaço para outra leitura.

O que é um arquétipo

Na perspectiva junguiana, o inconsciente divide-se em inconsciente pessoal e inconsciente coletivo. O inconsciente pessoal é constituído por conteúdos que já estiveram próximos da consciência, mas foram esquecidos, reprimidos, negligenciados ou rejeitados pelo ego. Trata-se de uma camada mais próxima da experiência de vida do indivíduo, formada a partir de sua história, seus afetos e seus conflitos.

Jung compreende o inconsciente coletivo como uma camada mais profunda da psique, formada por padrões universais, chamados arquétipos. Por isso, ele também o chamou de psique objetiva, uma vez que ultrapassa a história particular do indivíduo.

A hipótese do inconsciente coletivo foi desenvolvida por Jung a partir de sua investigação de sonhos, fantasias, delírios, mitos e religiões produzidos por diferentes culturas. Aniela Jaffé observa que Jung identificou imagens e padrões mitológicos semelhantes em expressões artísticas e culturais de comunidades diversas e em épocas distintas, mesmo quando não havia contato direto entre elas. Essa recorrência o levou a pensar que certas imagens e temas expressavam uma base psíquica comum à humanidade.

O arquétipo, é importante destacar, não é uma imagem pronta nem um conteúdo fixo. São possibilidades herdadas de representar imagens similares, formas instintivas de imaginar, matrizes arcaicas onde configurações semelhantes tomam forma. Jung os compara ao sistema axial dos cristais, que determina a estrutura cristalina na solução saturada, sem possuir, contudo, existência própria.

As imagens e ideias derivadas dos arquétipos não são idênticas em todos os indivíduos. Elas são recriadas em cada vida, assumindo formas específicas de acordo com o contexto histórico, cultural e pessoal. Como explica Jaffé, essas variantes dependem igualmente do arquétipo organizador, do ambiente, da experiência pessoal e da cultura.

O que isso muda na conversa sobre gênero

Essa diferenciação é fundamental para o diálogo com os estudos de gênero. Se os arquétipos não são imagens fixas, mas possibilidades estruturantes, então suas manifestações não podem ser tomadas como prescrições rígidas sobre o que homens e mulheres são ou devem ser.

As imagens do feminino e do masculino podem expressar motivos arquetípicos, mas são também atravessadas pela história, pela cultura, pela linguagem, pelas relações de poder e pelas experiências individuais.

Os limites de Jung

Susan Rowland, em Jung: uma revisão feminista, faz uma crítica contundente aos aspectos misóginos presentes na obra de Jung. Para a autora, uma característica marcante da forma como Jung trata gênero é a centralidade que ele dá ao feminino. Essa importância, contudo, frequentemente condensa o sexo corporal e o gênero psíquico.

Além disso, a psicologia analítica é estruturada a partir da tensão entre opostos: consciente e inconsciente, persona e sombra, anima e animus, luz e escuridão. Essa concepção enseja dificuldades no diálogo com os estudos feministas, porque parte significativa deles questiona precisamente a organização do feminino como contraponto ao masculino.

No pensamento dominante, o feminino foi frequentemente analisado em comparação com o masculino, entendido como derivação, falta ou ausência. Nesse enquadramento, o feminino existe apenas em função do masculino, e o sexo se sobrepõe ao gênero, dificultando a distinção entre categorias biológicas, simbólicas e culturais.

Apesar de sua enorme contribuição para os estudos sobre o desenvolvimento psíquico, Jung não deixava de ser um homem de seu tempo, ele próprio imerso em padrões misóginos de percepção do mundo.

E as possibilidades

Por outro lado, destaca Rowland, a teoria do inconsciente coletivo como função criativa, produtora de significados, diversa e plural, abre um espaço de diálogo com as perspectivas feministas. Ao sustentar a importância de olhar para aspectos desconhecidos e reconhecer que existem conteúdos para além do ego consciente, Jung conferiu privilégio à voz do outro. Isso, sem dúvida, é uma enorme contribuição.

Rowland reconhece que não é possível falar de um feminismo junguiano, mas sim de feminismos junguianos, cada qual com oportunidades e limites de atuação. Entre eles, destaca os estudos de Irene Claremont de Castillejo em Conhecendo mulheres, de 1973.

As três sombras da mulher, segundo Castillejo

Castillejo propôs uma ampliação dos conceitos ligados à identificação do ego feminino, formulados por Toni Wolff e Erich Neumann, em direção a uma separação entre sexo e gênero, permitindo mais possibilidades para a vivência da subjetividade da mulher. Para ela, parte do processo de individuação é a mulher descobrir sua sombra como uma questão cultural, além de psicológica.

Segundo Castillejo, as mulheres estão submetidas a três formas de sombra:

  1. a sombra da nação;
  2. a sombra da psique pessoal;
  3. a sombra de ser mulher em uma sociedade norteada por homens.

A individuação daria autoridade pessoal à mulher, ao lhe permitir conscientizar a sombra que a sociedade impõe ao seu gênero. Descobrir o feminino interno, para Castillejo, é se alinhar com os heróis e heroínas internos e atravessar com lucidez a hostilidade interna, mesmo dentro da “máquina civilizatória”.

Uma posição intermediária

É possível, então, adotar uma posição intermediária. Reconhecer que a psicologia junguiana trabalha com pares simbólicos e que essa estrutura é importante para sua compreensão da psique, mas levar em conta que o arquétipo não possui uma imagem fixa. E compreender o feminino, como propôs Castillejo, como um campo simbólico e cultural, atravessado pela história, por dinâmicas de poder e por processos de subjetivação, presente em homens e mulheres, e não como categoria natural, fixa ou determinada pelo sexo biológico.

O que interessa, nessa perspectiva, não é afirmar que existem comportamentos femininos ou masculinos universais, mas investigar como determinadas imagens simbólicas da feminilidade foram organizadas culturalmente e quais conteúdos foram excluídos, reprimidos ou projetados nesse processo.

Referências

  • JAFFÉ, Aniela. O mito do significado na obra de C. G. Jung. São Paulo: Cultrix, 2021.
  • JUNG, C. G. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. Petrópolis: Vozes, 2014.
  • ROWLAND, Susan. Jung: uma revisão feminista. Petrópolis: Vozes, 2024.

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