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De deusas a vilãs: Helena, Medeia e a fragmentação do feminino

Na perspectiva junguiana, os mitos são representações simbólicas de processos psíquicos presentes na humanidade. Eles narram, em linguagem figurativa, dinâmicas inconscientes que atravessam indivíduos e culturas. Ao analisar mitos, é possível observar transformações sociais, culturais e psíquicas que deram forma às imagens do feminino e do masculino ao longo do tempo.

Os mitos são fundamentais na psicologia analítica porque oferecem acesso ao inconsciente por meio de uma linguagem simbólica, capaz de alcançar dimensões da psique que transcendem formulações racionais. Como explica Erich Neumann, essa é a linguagem dos símbolos, a linguagem original do inconsciente e da humanidade. O símbolo coloca a consciência em movimento, pois indica, sugere, estimula e permite que conteúdos inconscientes sejam assimilados.

Duas figuras gregas mostram bem como o feminino foi sendo reduzido ao longo da história: Helena e Medeia.

Helena: de deusa a adúltera

Junito Brandão, em Helena, o eterno feminino, analisa como a personagem Helena foi sendo transformada ao longo da história, passando de figura divina e complexa a imagem reduzida de uma mulher adúltera.

Brandão situa a origem simbólica de Helena no contexto minoico, anterior ao surgimento da Grécia clássica. Nesse período, segundo o autor, a religiosidade estava vinculada à Grande Mãe e a uma estrutura social na qual as mulheres ocupavam lugar de maior paridade com os homens. Foi em Creta, na civilização organizada em torno de palácios como o de Cnossos, que nasceu a deusa Helena, uma entre várias faces da Grande Mãe.

Ao longo do tempo, contudo, o status simbólico de Helena foi sendo reduzido. A personagem, inicialmente vinculada a uma dimensão divina, passou a ser interpretada como heroína, rainha e, posteriormente, como mulher adúltera e criminosa. Brandão procura recompor o sýmbolon de Helena, isto é, reunir suas partes fragmentadas, recuperando sua complexidade original.

O patriarcado não eliminou as deusas: rebaixou-as

Esse processo de redução simbólica acompanha o fortalecimento de estruturas patriarcais. Segundo Brandão, o contato entre sociedades indo-europeias patriarcais e a sociedade minoica implicou uma reorganização das divindades femininas.

Não podendo eliminá-las por completo, o patriarcado as integrou a uma estrutura na qual passaram a ocupar posições secundárias, frequentemente como esposas, filhas ou auxiliares de deuses masculinos. Ao dominar Creta, os invasores impuseram seus deuses patriarcais, mas, de forma estratégica, fizeram com que eles se unissem ao antigo matriarcado minoico.

Medeia: da sabedoria à barbárie

De modo semelhante a Brandão, Olga Rinne retoma uma personagem mitológica marcada pela demonização patriarcal. Em Medeia: a redenção do feminino sombrio como símbolo de dignidade e sabedoria, a autora investiga o efeito destrutivo que a fixação no grande amor pode exercer sobre a mulher e propõe uma leitura simbólica da raiva, da dignidade e da potência feminina reprimida.

Na tragédia de Eurípides, Medeia é a mulher que, abandonada por Jasão, mata os próprios filhos. Mas, segundo Rinne, ela foi originalmente uma figura associada à sabedoria, à cura, à magia e ao poder sobre a vida e a morte. Com a consolidação do patriarcado, essa imagem foi perdendo força e sendo reinterpretada de modo depreciativo, até ser reduzida à de mulher bárbara, louca, ciumenta e destrutiva. A mulher que conhece, decide, deseja e se recusa a aceitar passivamente a humilhação passa a ser convertida em ameaça.

No patriarcado plenamente instaurado, diz a autora, Medeia se torna a estrangeira, aquela que não é “das nossas”. As características que compõem sua força, como o orgulho, o espírito de resistência e o poder de decisão, passam a atuar, quando muito, apenas no inconsciente da mulher que essa sociedade modelou.

Sua ira deixa de ser lida como resposta à violência sofrida e passa a ser tomada como prova de desmedida, loucura e monstruosidade.

A raiva que se volta contra si

Segundo Rinne, o impacto dessa transformação reverbera na subjetividade das mulheres. A interiorização de uma imagem frágil, incapaz e domesticada do feminino faz com que a raiva diante das ofensas à dignidade seja frequentemente dirigida contra a própria mulher, por meio da culpa, da depressão, da autodepreciação ou do ódio a si mesma.

Aquilo que a cultura relaciona ao feminino, como brandura, afabilidade e emotividade, é muitas vezes classificado como fraqueza; ao mesmo tempo, passividade, dependência e submissão são valorizadas como virtudes femininas.

Enquanto as figuras arquetípicas da Grande Deusa ofereciam modelos plurais de identificação (independência, fecundidade e sabedoria), a cultura patriarcal reduziu o valor feminino à castidade e à maternidade. Consequentemente, as próprias mulheres passaram a marginalizar aspectos como a ira, a autonomia e a sensualidade, relegando-os à categoria de “mal” ou “pecado” por não encontrarem suporte consciente para sua expressão.

Recompor o símbolo

Helena e Medeia evidenciam uma dinâmica simbólica recorrente: a perda de complexidade das imagens femininas. Ao serem incorporadas à ordem patriarcal, figuras antes ambivalentes, potentes e múltiplas passam a ser moralizadas, reduzidas ou culpabilizadas. Essa transformação pode ser lida, na chave junguiana, como uma fragmentação do feminino e uma expulsão de seus aspectos sombrios.

O resgate do feminino sombrio corresponde, então, à necessidade de reintegrar aspectos dissociados da experiência das mulheres, de modo a lhes oferecer uma vida mais completa. A construção de uma identidade psíquica mais íntegra exige que a mulher possa reconhecer em si não apenas os atributos culturalmente aceitos como femininos, mas também aqueles que foram reprimidos pela tradição patriarcal.

Recompor o sýmbolon de Helena e de Medeia é, nesse sentido, devolver às mulheres uma imagem inteira de si mesmas.

Referências

  • BRANDÃO, Junito S. Helena, o eterno feminino. Petrópolis: Vozes, 1989.
  • NEUMANN, Erich. A Grande Mãe. São Paulo: Cultrix, 2006.
  • RINNE, Olga. Medeia: a redenção do feminino sombrio como símbolo da dignidade e sabedoria. São Paulo: Cultrix, 2017.

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