A psicóloga Valeska Zanello, em sua obra Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação, analisa como as normas de gênero moldam profundamente a saúde mental e a manifestação do sofrimento psíquico em homens e mulheres. Com base em teorias feministas, ela parte da ideia de que a loucura não é apenas biológica, mas uma experiência construída socialmente a partir de estereótipos de gênero.
Sua pesquisa revela que o sofrimento feminino está frequentemente ligado ao silenciamento e à pressão para ser escolhida e para cumprir papéis de cuidado. Um dos conceitos centrais dessa análise é o que ela chamou de “dispositivo amoroso”.
A prateleira do amor
O dispositivo amoroso implica o fato de as mulheres terem sua subjetividade pautada pelo olhar de um homem, que as valide e escolha. A forma como a mulher se percebe, de acordo com a autora, se relaciona com a maneira como ela se sente percebida por este outro.
Para explicar essa dinâmica, Zanello usou a metáfora da “prateleira do amor”, na qual as mulheres estariam dispostas para serem escolhidas, tal qual um produto numa loja. O valor de uma mulher, segundo a autora, estaria relacionado diretamente ao quão próxima ela se encontra do ideal estético, que é “branco, louro, magro e jovem”.
A autora analisa as disposições de gênero a partir de uma perspectiva histórica, considerando dinâmicas socioeconômicas e culturais que reforçaram as características que sustentam o dispositivo amoroso. Um dos aspectos que estão no centro desse dispositivo é a ideia de que à mulher cabe a responsabilidade pela manutenção das relações: a energia, a atenção e o tempo dedicados a elas, o silêncio como forma ideal de preservar o “bem-estar” do vínculo e até o sexo sem vontade como forma de barganha relacional.
Não ser escolhida figuraria entre os principais motivos de adoecimento, dado que se relaciona diretamente com a percepção de valor que a mulher tem de si mesma. Como resume a autora, “o que está em xeque é a legitimidade da mulher como mulher”.
Essa dinâmica contribui para que aspectos incompatíveis com a feminilidade normativa sejam reprimidos ou vividos com culpa. A mulher precisa se adaptar para atender a esse ideal e conseguir um lugar melhor na “prateleira do amor”.
O que vai para a sombra
Na psicologia junguiana, a sombra pode ser compreendida como “o outro em nós”, um conjunto de conteúdos que o ego não reconhece como pertencentes a si, seja porque os considera moralmente inaceitáveis, incompatíveis com sua autoimagem ou contrários às exigências de adaptação ao mundo externo. A sombra não corresponde apenas ao mal, embora possa conter aspectos destrutivos. Ela inclui tudo aquilo que foi rejeitado, negligenciado ou não desenvolvido pela personalidade consciente.
Se a feminilidade normativa valoriza docilidade, beleza, entrega amorosa, cuidado, passividade e contenção, conteúdos como raiva, ambição, agressividade, desejo, recusa e potência podem ser relegados à sombra.
A raiva diante da humilhação, a recusa da subserviência, o desejo de autonomia e o poder podem ser percebidos como ameaças à imagem da mulher amável, disponível e desejável, somada aos padrões de beleza impostos. Sob a perspectiva junguiana, tais conteúdos não desaparecem quando são negados pela consciência. Ao contrário, tendem a permanecer atuantes na sombra, retornando de forma destrutiva.
Medeia e a mulher que não foi escolhida
A leitura de Zanello permite aproximar a narrativa de Medeia da experiência contemporânea das mulheres. No mito narrado por Eurípides, Medeia é apresentada como uma mulher poderosa e sábia que, após ser abandonada por Jasão, mata a nova esposa dele, o rei Creonte e os próprios filhos.
Olga Rinne, em Medeia: a redenção do feminino sombrio como símbolo de dignidade e sabedoria, mostra como a ira, o orgulho, a autonomia e o poder foram historicamente associados a uma feminilidade perigosa e demonizada. Zanello, por sua vez, evidencia como a subjetivação feminina ainda é atravessada por dispositivos culturais que orientam as mulheres à validação pelo olhar do outro, sobretudo pelo olhar masculino.
A mulher abandonada, traída e destituída de lugar por um homem que reafirma seu poder social por meio de uma nova união ultrapassa a narrativa antiga e alcança estruturas ainda presentes na cultura contemporânea. Ademais, a narrativa revela a centralidade que a relação com Jasão representou na vida de Medeia. Uma vez que ele a abandona, Medeia se vê tomada pela ira e, ainda que direcione sua raiva ao mundo externo, também acaba construindo sua própria destruição.
Desse ponto de vista, Medeia pode ser lida como imagem simbólica daquilo que a feminilidade normativa não consegue integrar. Sua ira e sua potência não devem ser compreendidas como justificativa moral da destruição, mas como expressão extrema de conteúdos que, quando não elaborados, podem retornar de modo devastador.
Inverter a lógica: um amor voltado a si
James Hillman propõe que a integração da sombra passa também pelo amor: é preciso reconhecer, cuidar e acolher as partes indesejáveis da psique, sem abandonar a dimensão moral desse processo. Para ele, a cura é um paradoxo. Envolve, primeiro, o reconhecimento moral de que essas partes são opressivas e precisam mudar e, depois, uma aceitação amorosa que as acolhe exatamente como são.
Em diálogo com Zanello, seria possível inverter a lógica do amor direcionado ao outro, à relação e à dependência da validação masculina, para pensar um amor voltado a si própria, como validação de si, de suas características diversas, de sua luz e de sua sombra.
A integração desses aspectos não significa justificar a violência sofrida, a opressão ou as formas destrutivas de ação, mas compreender que aquilo que é negado ou reprimido também produz efeitos. Assim, ao invés de sustentar uma imagem idealizada da mulher como naturalmente boa, cuidadora, pacífica ou moralmente superior, a psicologia analítica permite pensar uma subjetividade feminina mais inteira, capaz de reconhecer conflitos internos, ambivalências e emoções consideradas negativas.
Isso possibilita às mulheres uma vivência mais plena e integrada, em que o próprio valor deixa de depender do lugar que se ocupa na prateleira.
Referências
- HILLMAN, James. A cura da sombra. In: ZWEIG, C.; ABRAMS, J. Ao encontro da sombra. São Paulo: Cultrix, 1991.
- RINNE, Olga. Medeia: a redenção do feminino sombrio como símbolo da dignidade e sabedoria. São Paulo: Cultrix, 2017.
- ZANELLO, Valeska. Saúde mental, gênero e dispositivos: cultura e processos de subjetivação. Curitiba: Appris, 2018.
